Matéria publicada no NOVO JORNAL, no dia 11 de agosto de 2013
Pétala já almoçou mas ainda não está pronta para a escola. Falta pouco tempo para suas aulas começarem e seu pai não lhe deixa esquecer disso. “Pétala, você vai se atrasar. Vá tomar banho”, adverte Wagner com os braços cruzados e voz tranquila logo atrás de sua filha. Do outro lado da mesa do jardim, seu pai Henrique está com as pernas cruzadas e concorda com a recomendação de Wagner, apenas reforçando o olhar para a filha um pouco encabulada com as perguntas daquele outro rapaz estranho diante dela.
“Seus pais são muito chatos com você?”, continua o repórter. Ela sorri e, tímida, solta um “às vezes” bem demorado. “às veeeeeezes”, diz a menina de 10 anos passando a mão nos cabelos enfeitados por um diadema rosa. Ela é a mais estudiosa da família, segundo seu pai Henrique. A irmã, Pérola, dois anos mais velha ainda não voltou da escola. As duas estudam em turnos diferentes para evitar as brigas do dia a dia. “Eu não brigo muito com ela não... mais ou menooooos”, garante.
Enquanto Henrique geralmente é mais rígido no cumprimento das regras da casa, Wagner é quem deixa ela passar um pouco mais do horário à noite na televisão. “É difícil escolher a matéria que mais gosto porque eu gosto de todas elas”, afirma Pétala, que quando crescer quer ser igual aos pais. “Quero ser igual à eles”, diz. “Psicólogos?”, confirma o repórter. “Isso aí mesmo. Quem quer ser modelo é a minha irmã Pérola”, revela aos risos.
Pétala, Pérola, Wagner da Matta Pereira (48) e Carlos Henrique Souza da Cruz (52) formam uma família desde 2006, 3 anos após o casal ter dado entrada no processo de adoção das meninas, se tornando o primeiro caso de adoção homoafetiva brasileira. Na época, os cariocas já residiam em Natal por estarem um pouco cansados da rotina mais acelerada do Rio de Janeiro.
“A gente sempre vinha ao Nordeste e gostávamos bastante de Natal, então o Henrique, que servia à Aeronáutica na época, pediu transferência para cá e quando chegamos fomos amadurecendo aos poucos a ideia de sermos pais”, explica Wagner dizendo também que o desejo paterno sempre foi mais latente em Henrique. “Quando eu era mais jovem não queria ter filhos porque a nossa rotina seria modificada. Nós sempre fomos aventureiros, mochileiros mesmo, e com criança ficava difícil”, confessa.
Henrique na verdade diz que queria ser pai desde quando foi casado em uma relação heterossexual que durou 8 anos. “Mas não deu certo”, explica. Ao contrário do que fez o cantor Ricky Martin e que também pode ser visto na atual novela das oito exibida pela Rede Globo, “Amor à Vida”, na qual um casal gay da novela quer ter filhos através de uma barriga de aluguel, eles nunca pensaram nesta possibilidade, sempre tiveram em mente que gostariam de adotar uma menina.
“DESTINO MÁGICO”
Inicialmente Henrique entrou com o pedido de adoção sozinho para agilizar o processo, no entanto, pela morosidade da justiça potiguar, levou o caso para a 2ª Vara da Infância e Juventude de Recife, onde a sentença saiu com pouco mais de 6 meses já constando o nome de Wagner como parte da família. A partir de então, os dois se tornaram pais. Para sempre. “No meio disso tudo, um deputado da Paraíba entrou com um processo contra adoção homoafetiva e por isso as coisas demoraram um pouco mais”, lembra.
“Em Natal as pessoas foram preconceituosas. Para você ter uma ideia, as assistentes sociais vieram aqui em casa e me perguntaram quem seria a mãe entre nós dois”, lembra Wagner. “Eu não acreditei no que eu estava ouvindo, mas respondi que nesta casa não haveria mãe. Nunca haveria uma mãe, e sim dois pais”, garante.
Henrique também foi o primeiro a conhecer suas filhas, através da indicação de uma amiga que lhe apresentou um abrigo somente de meninas em Recife. Curiosamente todas as vezes que ele visitou o local, somente Pérola, a mais velha, estava por lá. “É como quem adota sempre diz, é uma coisa meio mágica. Tudo vai se encaixando de acordo com o destino”, avalia o pai coruja.
Naquele tempo as irmãs ainda não estavam oficialmente disponíveis para adoção porque ainda possuiam ligação com sua família biológica. Somente após duas audiências nas quais nenhum familiar compareceu é que elas puderam ser adotadas pelo casal que ainda teve de driblar uma fila de espera. Detalhes que Henrique prefere desmembrar no livro que a partir da próxima semana estará disponível para vendas em sua segunda edição. Mas sobre ele falamos daqui a pouco.
“AGORA SOMOS PAIS”
Depois da sentença emitida em novembro de 2006, o primeiro desafio dos dois foi internalizar na casa o papel de pai que cada um iria desempenhar a partir de então. “Ninguém se torna pai da noite para o dia, é assim porque o filho te chama assim. É uma relação de afeto”, define Wagner que também faz questão de frisar que são chatos na educação dos filhos. Pérola e Pétala sabem que existe hora para dormir, tempo para internet e limites que não devem ser quebrados.
“Por que se a gente não impõe limites agora, quando ainda está pequena, como vai ser lá na frente?”, explica Henrique, o mais adepto também aos castigos. “Ah, se não fez a lição ou se não quer comer também perde algum benefício. Ser pai é muito difícil”, completa.
Até hoje o único incidente desegradável na escola foi o comentário de uma professora que disse em sala de aula que “dois homens juntos era coisa do diabo”. “Quando as meninas chegaram em casa contando eu perguntei a elas o que elas achavam, e fui conversar. Sempre há muita conversa aqui em casa”, lembra Henrique dizendo ainda que escreveu uma carta para escola.
O maior desafio hoje para os pais é justamente o começo da adolescência nas filhas. “Sábado passado mesmo eu tive que passar na casa de 3 amigas da Pérola para pegar todas elas, levar para uma festa e na volta deixar todas elas em casa novamente”, lembra Wagner comentando que o título de primeiro casal homoafetivo a realizar uma adoção foi casual. “Acho que nós fomos o primeiro caso de uma mudança que está acontecendo”, define.
As festas na escola, seja de dia dos pais ou seja de dia das mães, também nunca foram um problema para o casal. “Quando um não pode ir o outro vai e assim nós vamos levando. E não é só isso, tem que comparecer em reuniões de classe também. Isso não quer dizer que não cause impacto, mas as pessoas não demonstram de cara porque existe também um pouco de hipocrisia que a sociedade guarda”, diz Wagner.
A única expectativa para o futuro é que elas sejam felizes, independente da profissão que escolherem. “A gente planeja, é claro, mas eu quero que elas ecolham algo que lhes faça feliz. Só isso”, afirma Henrique. “Do jeito que elas quiserem, que amem e que sejam amadas. Mas sem dúvida que elas respeitem o próximo, independente de tudo”, complementa Wagner.
Até o final do ano, o casal pretende converter a união estável homoafetiva em casamento civil, dada a resolução do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) garantindo o direito a partir da decisão do Supremo Tribunal Federal. “Mas só para garantir os direitos mesmo, já estamos juntos há 20 anos. Já somos casados”, afirmam.
“AMOR NÃO SE CURA”
Como psicólogo e professor da UNI-RN, Henrique repudia o projeto recém arquivado na Câmara dos Deputados, conhecido como “Cura Gay”. De acordo com texto idealizado pelo deputado João Campos (PSDB-GO), todos os homossexuais que quisessem converter sua sexualidade poderiam se “curar” com a ajuda de psicólogos. A proposta foi uma das mais lembradas durantes a onda de protestos que tomou o país nos últimos meses.
“Não há cura. Homossexualidade não é doença, vários conselhos deliberam isso. Quando uma pessoa busca essa “cura”, no final das contas o problema está na aceitabilidade que ela tem dela mesma. Acho que essa discussão passa por religião, e aí sim deve se entrar em pauta que o Estado deve ser laico e que a Bíblia é mal interpretada”, avalia.
PRIMEIRO CAPÍTULO
O casal se conheceu há 20 anos, em uma noite que seria qualquer se Wagner não tivesse saído de um evento em um Hotel por volta das 21h e fosse pegar as barcas para voltar para Niterói, onde morava. Parou em uma barraquinha para comprar doces e então percebeu o interesse mútuo de um homem que se aproximava.
“A gente se falou e marcamos de ver uma ópera em Copacabana no sábado, mas não iria dar tempo então decidimos sair um pouco mais tarde”, lembra Wagner que prefere contar a história. “Toda vez é você que conta”, diz para Henrique antes de começar.
Era 22h em ponto quando Wagner chegou em um bar na Lapa, onde haviam marcado de se encontrar, duas horas se passaram até Henrique dar sinal de vida. “Houve um engarrafamento terrível de Copacabana para a Lapa e eu me atrasei muito, jurava que ele nem estaria mais lá”, interrompe Henrique.
“Eu realmente já nem estava mais por ele, pensava que ele não viria mesmo. Mas era Sábado então fiquei. Quando ele chegou foi uma surpresa muito grande”, completa Wagner sorrindo para seu companheiro. “Esse foi o primeiro dia que nós caminhamos, porque esse virou um hábito nosso com o tempo. Caminhamos muito mesmo e conversamos a noite toda”, contam. “E desde então nunca se separaram?”, pergunta o repórter. “Nunca”, respondem os dois.
LIVRO
Na próxima quarta-feira às 19h, Henrique estará lançado a segunda edição do livro que escreveu sobre o processo de adoção de suas filhas. “Duas Filhas, Dois Pais - História e Desafios da Primeira Adoção Homoafetiva Brasileira” traz o texto atualizado e com um capítulo a mais escrito por Wagner intitulado “Quando Me Tornei Pai”, onde ele escreve sobre os desafios que sentiu no começo da missão.
“Dia dos pais será um dia como qualquer outro aqui em casa, assim como é o dia das mães ou o dia das crianças. Todos são datas comemorativas criadas apenas para dar presente, é claro, é legal que tenha um dia para homenagear, mas nós não precisamos de um único dia para respeitar. Você não se torna pai de um dia para o outro, é uma relação de afeto que se constrói nos mínimos detalhes. Desde um nome na agenda com a caligrafia da professora até quando sua filha lhe começa a chamar de pai”, conclui Wagner.

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