quinta-feira, 29 de agosto de 2013

O QUE DIRIA CLARICE LISPECTOR?

Matéria publicada em 21 de abril de 2013, no NOVO JORNAL

>> Repórter relata seu encontro inusitado com a escritora falecida em 1977, ressuscitada na pele da atriz Beth Goulart.

Foto: Fabian

Naquela manhã, Clarice atendia por Beth e Beth também atendia por Clarice. Duas em uma só, assim como tem sido desde julho de 2009 quando a atriz subiu ao palco pela primeira vez para dar vida à escritora ucraniana naturalizada brasileira e falecida em 1977 no Rio de Janeiro. Esta semana foi a vez de Natal mergulhar neste universo sobretudo feminino e devastador quando Beth Goulart passou com seu monólogo pelo Teatro Alberto Maranhão, na última quarta-feira, 17, proporcionando ao público um encontro entre autora e personagens; se revezando entre Joana, Ana, Lóri, uma mulher sem nome e Lispector.

“Simplesmente eu, Clarice Lispector”, escrito, dirigido e protagonizado pela atriz carioca é, como ela mesma define, um “olhar amoroso sobre a vida e a obra de Clarice” - visto até então por um público de quase 700 mil espectadores. O monólogo lhe rendeu ainda 4 prêmios de melhor atriz: Shell 2009, APTR, Revista Contigo e Qualidade Brasil que premiou o projeto também como melhor espetáculo.

“É uma história conduzida pela própria Clarice, que é o personagem principal, mas também tem outras 4 personagens para que o público entre em contato com a sua obra através destas mulheres”, justifica a atriz logo após de terminar o café da manhã em um rápido bate papo com a imprensa.

“Ela vai falando um pouquinho sobre a opinião dela, os valores dela, o processo criativo, a vida, a morte, a arte... Ela divide com o público essas considerações, se transformando nesses personagens e voltando para ela mesma”, complementa.

Estar no palco revivendo uma das escritoras mais aclamadas da nossa literatura é semelhante a ler a própria Clarice, segundo Goulart, que após cada apresentação faz questão de sortear dois livros da autora, também como forma de fomentar a leitura.“É uma literatura muito potente, a dela. Fazer esse espetáculo é como ler um livro de Clarice, a cada leitura uma nova sensação; a cada noite de espetáculo, uma nova experiência”, compara.

“Ela cria muitas transformações no ser humano, tanto para quem está assistindo quanto para mim que estou lidando diretamente com essas palavras. A cada dia, uma palavra daquelas vai agir em um lugar especial em mim e eu vou dividir essa experiência com o público”, conta.

JOANA

Ao todo foram 2 anos de pesquisa, 6 meses de estudo com o texto pronto, mais alguns meses de ensaio e somente a partir daí Goulart se sentiu confortável para reviver um ícone que na verdade começou a admirar aos 13 anos quando leu “Perto do Coração Selvagem” e conheceu uma menina semelhante a ela na época, Joana.

“Joana era uma adolescente e eu também, então me identifiquei totalmente com a personagem, com a linguagem, tive a sensação de que ela me conhecia por dentro. Com isso criei uma cumplicidade muito grande com ela ou ela criou uma cumplicidade muito grande comigo e isso ficou para a vida inteira”, agradece lembrando ainda que Perto do Coração Selvagem, por acaso, também foi o primeiro livro que Clarice escreveu.

A menina cresceu, assim como a escritora também, em épocas diferentes, é claro, Beth é 41 anos mais jovem do que Clarice. O desejo de levar para o palco aquela escritora que lhe encantou aos 13, veio somente algumas décadas depois, também fruto de outra leitura. “Sempre tive vontade de fazer alguma coisa sobre ela, sobre a vida dela, uma obra talvez. Não sabia exatamente, até que num determinado momento eu li um livro e ali eu enxerguei ela como personagem pela primeira vez e tudo se desenvolveu”, explica.

Interpretar uma personagem que já existiu, ainda mais sendo Clarice Lispector, traz vantagens e desvantagens, se comparado a uma personagem que começa a existir a partir da ficção. Para Beth Goulart, a principal dificuldade é lidar com as expectativas das pessoas, já que cada um tem a sua visão da escritora. “De certa forma encarnar Clarice significa lidar com todas essas possibilidades de visão numa só, que é a minha”, afirma.

Já entre as vantagens, ela comenta sobre as referências existentes. “É mais fácil por outro lado porque você tem mais referencias. Quando você lida com um personagem que não existe  é você que cria essas referências, enquanto que o personagem existente já lhe dá, a princípio, uma série de informações concretas para você realizar o trabalho”, garante.

“Mas eu acho que a facilidade ou a dificuldade de realizar isso está diretamente ligada a capacidade de entrega que você tem a esse personagem e de transformação que você se dá para virar o outro. Isso clarice também me ensinou, ela que era o outro do outro também me ensinou a ser assim”, conclui. 

Foto: Fabian

UM CAFÉ COM CLARICE

Naquela manhã, Clarice surgiu de repente, vestido azul florido, cabelos curtos, como sempre. Estranhamente desacompanhada de um cigarro, trazia na ponta da língua qualquer resposta para qualquer pergunta, e foi assim, depois de um café da manhã que, por alguns minutos, eu pude conversar com Clarice Lispector ouvindo inclusive o sotaque levemente carregado que tanto pode ser notado, por exemplo, na famosa entrevista à TV Cultura facilmente encontrada no youtube. Poucos minutos. Oito perguntas. Clarice me falou o que ela achava sobre:

... Marco Feliciano?
Um absurrrdo. Ninguém tem direito a verdade. A verdade não é uma só. Todos Têm parrrrcelas de verdade. Ele é um louco.

... O fanatismo religioso?
A fé é uma só.

... O Tecnobrega?
Interrresante, um ritmo bastante interrressante. Vou escutar melhor.

... Natal?
É uma festa linda, é uma cidade linda. Uma cidade que tem a energia do nascimento.

... A atual cena do teatro brasileiro?
É prrreciso cada vez mais estar prrresente para que o ato se concrrretize.

... A moda cada vez mais crescente entre os adolescentes de retuitar e compartilhar frases que supostamente teriam sido ditas pela senhora?
Falem de mim, me ouçam, pensem e façam silêncio.

... A moda “vintage”?
Rever é uma forma de comprrreender

... Um país que está investindo tanto na Copa do Mundo?
Pensem mais nas crrrianças.


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