>> Repórter relata seu encontro inusitado com a escritora falecida em 1977, ressuscitada na pele da atriz Beth Goulart.
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| Foto: Fabian |
Naquela manhã, Clarice atendia por Beth e Beth também
atendia por Clarice. Duas em uma só, assim como tem sido desde julho de 2009
quando a atriz subiu ao palco pela primeira vez para dar vida à escritora ucraniana naturalizada brasileira e falecida em 1977 no Rio de Janeiro. Esta
semana foi a vez de Natal mergulhar neste universo sobretudo feminino e
devastador quando Beth Goulart passou com seu monólogo pelo Teatro Alberto Maranhão, na
última quarta-feira, 17, proporcionando ao público um encontro entre autora e
personagens; se revezando entre Joana, Ana, Lóri, uma mulher sem nome e
Lispector.
“Simplesmente eu, Clarice Lispector”, escrito, dirigido e protagonizado
pela atriz carioca é, como ela mesma define, um “olhar amoroso sobre a vida e a
obra de Clarice” - visto até então por um público de quase 700 mil espectadores.
O monólogo lhe rendeu ainda 4 prêmios de melhor atriz: Shell 2009, APTR,
Revista Contigo e Qualidade Brasil que premiou o projeto também como melhor
espetáculo.
“É uma história conduzida pela própria Clarice, que é o personagem
principal, mas também tem outras 4 personagens para que o público entre em
contato com a sua obra através destas mulheres”, justifica a atriz logo após de
terminar o café da manhã em um rápido bate papo com a imprensa.
“Ela vai falando um pouquinho sobre a opinião dela, os
valores dela, o processo criativo, a vida, a morte, a arte... Ela divide com o
público essas considerações, se transformando nesses personagens e voltando
para ela mesma”, complementa.
Estar no palco revivendo uma das escritoras mais aclamadas
da nossa literatura é semelhante a ler a própria Clarice, segundo Goulart, que
após cada apresentação faz questão de sortear dois livros da autora, também
como forma de fomentar a leitura.“É uma literatura muito potente, a dela. Fazer
esse espetáculo é como ler um livro de Clarice, a cada leitura uma nova sensação;
a cada noite de espetáculo, uma nova experiência”, compara.
“Ela cria muitas transformações no ser humano, tanto para
quem está assistindo quanto para mim que estou lidando diretamente com essas
palavras. A cada dia, uma palavra daquelas vai agir em um lugar especial em mim
e eu vou dividir essa experiência com o público”, conta.
JOANA
Ao todo foram 2 anos de pesquisa, 6 meses de estudo com o
texto pronto, mais alguns meses de ensaio e somente a partir daí Goulart se sentiu
confortável para reviver um ícone que na verdade começou a admirar aos 13 anos
quando leu “Perto do Coração Selvagem” e conheceu uma menina semelhante a ela
na época, Joana.
“Joana era uma adolescente e eu também, então me
identifiquei totalmente com a personagem, com a linguagem, tive a sensação de
que ela me conhecia por dentro. Com isso criei uma cumplicidade muito grande
com ela ou ela criou uma cumplicidade muito grande comigo e isso ficou para a
vida inteira”, agradece lembrando ainda que Perto do Coração Selvagem, por
acaso, também foi o primeiro livro que Clarice escreveu.
A menina cresceu, assim como a escritora também, em épocas
diferentes, é claro, Beth é 41 anos mais jovem do que Clarice. O desejo de
levar para o palco aquela escritora que lhe encantou aos 13, veio somente algumas
décadas depois, também fruto de outra leitura. “Sempre tive vontade de fazer
alguma coisa sobre ela, sobre a vida dela, uma obra talvez. Não sabia
exatamente, até que num determinado momento eu li um livro e ali eu enxerguei
ela como personagem pela primeira vez e tudo se desenvolveu”, explica.
Interpretar uma personagem que já existiu, ainda mais sendo
Clarice Lispector, traz vantagens e desvantagens, se comparado a uma personagem
que começa a existir a partir da ficção. Para Beth Goulart, a principal dificuldade
é lidar com as expectativas das pessoas, já que cada um tem a sua visão da
escritora. “De certa forma encarnar Clarice significa lidar com todas essas
possibilidades de visão numa só, que é a minha”, afirma.
Já entre as vantagens, ela comenta sobre as referências existentes.
“É mais fácil por outro lado porque você tem mais referencias. Quando você lida
com um personagem que não existe é você
que cria essas referências, enquanto que o personagem existente já lhe dá, a
princípio, uma série de informações concretas para você realizar o trabalho”,
garante.
“Mas eu acho que a facilidade ou a dificuldade de realizar
isso está diretamente ligada a capacidade de entrega que você tem a esse
personagem e de transformação que você se dá para virar o outro. Isso clarice
também me ensinou, ela que era o outro do outro também me ensinou a ser assim”,
conclui.
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| Foto: Fabian |
UM CAFÉ COM CLARICE
Naquela manhã, Clarice surgiu de repente, vestido azul
florido, cabelos curtos, como sempre. Estranhamente desacompanhada de um cigarro, trazia na
ponta da língua qualquer resposta para qualquer pergunta, e foi assim, depois
de um café da manhã que, por alguns minutos, eu pude conversar com Clarice
Lispector ouvindo inclusive o sotaque levemente carregado que tanto pode ser
notado, por exemplo, na famosa entrevista à TV Cultura facilmente encontrada no
youtube. Poucos minutos. Oito perguntas. Clarice me falou o que ela achava
sobre:
... Marco Feliciano?
Um absurrrdo. Ninguém tem direito a verdade. A verdade não é
uma só. Todos Têm parrrrcelas de verdade. Ele é um louco.
... O fanatismo religioso?
A fé é uma só.
... O Tecnobrega?
Interrresante, um ritmo bastante interrressante. Vou escutar
melhor.
... Natal?
É uma festa linda, é uma cidade linda. Uma cidade que tem a
energia do nascimento.
... A atual cena do teatro brasileiro?
É prrreciso cada vez mais estar prrresente para que o ato se
concrrretize.
... A moda cada vez mais crescente entre os adolescentes de
retuitar e compartilhar frases que supostamente teriam sido ditas pela senhora?
Falem de mim, me ouçam, pensem e façam silêncio.
... A moda “vintage”?
Rever é uma forma de comprrreender
... Um país que está investindo tanto na Copa do Mundo?
Pensem mais nas crrrianças.


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